Chegava toda tarde no mesmo horário.Abria a porta de seu velho apartamento onde o cheiro do mofo das roupas velhas jogadas pelos poucos móveis invadiam os sombrios corredores. Tudo parecia ter sido esquecido por lá.As cortinas pesadas,sempre fechadas,impediam que raios de vida penetrassem no seu mundo solitario.Garrafas vazias e cinceiros cheios eram o único cenário de seu cotidiano.Retirava de um porta chapéu abandonado num canto da sala um sobretudo fora de moda e um chapéu bem marcado pelo tempo.Saia pelo beco escuro e logo alcançava a avenida que o levava para aquela rua glamourosa da grande metrópole.Parava numa esquina escura,como tudo em sua vida era e ficava observando o vai e vem das prostitutas que por ali faziam seus programas.Loiras,ruivas morenas,mas uma lhe parecia especial.Talvez a mais bonita de todas e a que recebia o maior numero de pretendentes.Sempre seu primeiro e o último cliente vinham em belos trajes,em belos carros e traziam - lhe belos presentes. Depois ela seguia feliz para sua kitnet e ele como um guardião secretamente a levava até a porta.Depois que ela entrava ele voltava para casa com o coração menos apertado.Seria uma paixão proibida? Sim pois ele era velho,sem nenhum atrativo físico e financeiro que fizessem com que a bela donzela notasse sua presença. E isso eram todas as noites, de todas as semanas de todos os meses de muitos anos. Ela fazendo seus programas e ele a vigiando de longe. Um dia tudo mudou. Ele chegou no mesmo horário que costumava chegar e a sua pequena não estava na esquina esperando pelo seu primeiro amante. Naquela noite, não se viu o fino galã que a cortejava e nem muitos outros que por ela procuravam. As horas foram se passando e um burburinho entre as demais garotas foi tomando tamanho espanto. A morena fatal havia sido encontrada morta num hotel com uma facada no peito e um lindo ramalhete nas mãos. Gélido e trêmulo, ele se encaminha para o local do crime onde vários policiais estão cuidando do caso. Ninguém conhecia aquela moça nessa hora.
- Será enterrada como indigente - informou o chefe da investigação. Ninguém apareceu para fazer a identificação. Enrolada num lençol ensanguentado e colocada na ambulancia que a levantaria para algum lugar desconhecido. Ele chora convulsivamente nessa hora e pronuncia suas ultimas palavras:
_ Vai com Deus minha filha.
Nunca mais foi visto no prédio em que morava.Nunca mais apareceu na esquina escura.A faca que matou a prostituta foi encontrada dias depois enrolada num sobretudo empoeirado debaixo de um chapéu puido.
|
|
|||
|
|||